Quem sou eu

O projeto "Longa jornada livro adentro: a análise de textos literários" visa incentivar a leitura e a interpretação de textos de diferentes épocas e estilos. O grupo fará oficinas quinzenais, aos sábados pela manhã, em que se debaterão obras, tendências e outros assuntos do mundo da literatura. Aqui, você confere os tópicos em pauta, os principais itens discutidos nas reuniões e a organização para os encontros futuros. As oficinas se realizarão no auditório da UFFS.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

8ª oficina: A África em português: irmãos de sangue que falam além do mar

Do outro lado do Atlântico, no grande continente africano, há milhões de pessoas que compartilham o idioma português: Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Timor Leste, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde. A sua compreensão de mundo, o seu resgate histórico, tudo é lançado, por meio da literatura, como pontes em busca da outra banda. Por isso, na oitava oficina, a se realizar no dia 19/10, às 08 horas, no Auditório da UFFS, vai-se mostrar como as histórias ancestrais africanas são reinventadas numa linguagem carregada de musicalidade. Em contos e poemas, nomes como Mia Couto, Agostinho Neto e Ondjaki vão mostrar que a água do Atlântico é facilmente transposta pela viagem literária.





Raízes(1955-)
Mia Couto

Uma vez um homem deitou-se, todo, em cima da terra. A areia lhe servia de almofada. Dormiu toda a manhã e quando se tentou levantar não conseguiu. Queria mexer a cabeça: não foi capaz. Chamou pela mulher e pediu-lhe ajuda.
- “Veja o que me está a prender a cabeça”.
A mulher espreitou por baixo da nuca do marido, puxou-lhe levemente pela testa. Em vão. O homem não desgrudava do chão.
- “Então, mulher? Estou amarrado?
- “Não, mando, você criou raízes.
- “Raízes?”
Já se juntavam as vizinhanças. E cada um puxava sentença. O homem, aborrecido, ordenou à esposa:
- “Corta!
- “Corta, o quê?
- “Corta essa merda das raízes ou lá o que é”...
A esposa puxou da faca e lançou o primeiro golpe. Mas logo parou.
- “Dói-lhe?
- “Quase nem. Porquê me pergunta?
- “É porque está sair sangue”.
Já ela, desistida, arrumara o facão. Ele, esgotado, pediu que alguém o destroncasse dali. “Me ajudem”, suplicou. Juntaram uns tantos, gentes da terra. Aquilo era assunto de camponês. Começaram a escavar o chão, em volta. Mas as raízes que saíam da cabeça desciam mais fundo que se podia imaginar. Covaram o tamanho de um homem e elas continuavam para o fundo. Escavaram mais que as fundações de uma montanha e não se vislumbrava o fim das radiculações.
- “Me tirem daqui”, gemia o homem, já noite.
Revesaram-se os homens, cada um com sua pá mais uma enxada. Retiraram toneladas de chão, vazaram a fundura de um buraco que nunca ninguém vira. E laborou-se semanas e meses. Mas as raízes não só não se extinguiam como se ramificavam em mais redes e novas radículas. Até que já um alguém, sabedor de planetas, disse:
- “As raízes dessa cabeça dão a volta ao mundo”.
E desistiram. Um por um se retiraram. A mulher, dia seguinte, chamou os sábios. Que iria ela fazer para desprender o homem da inteira terra? Pode-se tirar toda a terra, sacudir as remanascentes areias, disse um. Mas um outro argumentou: assim teríamos que transmudar o planeta todo inteiro, acumular um monte de terra do tamanho da terra. E o enraizado, o que que se faria dele e de todas suas raízes? Até que falou o mais velho e disse:
- “A cabeça dele tem que ser transferida”.
E para onde, santos deuses? Se entreolharam todos, aguardando pelo parecer do mais velho.
- “Vamos plantar a cabeça dele lá!”
E apontou para cima, para as celestiais alturas. Os outros devolveram a estranheza. Que queria o velho dizer?
- “Lá, na lua”.
E foi assim que, por estreia, um homem passou a andar com a cabeça na lua. Nesse dia nasceu o primeiro poeta.




Identidade

Preciso ser um outro 
para ser eu mesmo 

Sou grão de rocha 
Sou o vento que a desgasta 

Sou pólen sem insecto 

Sou areia sustentando 
o sexo das árvores 

Existo onde me desconheço 
aguardando pelo meu passado 
ansiando a esperança do futuro 

No mundo que combato morro 
no mundo por que luto nasço 

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"




O BAIRRO DA MINHA INFÂNCIA
Mia Couto


Não são as criaturas que morrem.

É o inverso:
só morrem as coisas.

As criaturas não morrem
porque a si mesmas se fazem.

E quem de si nasce
à eternidade se condena.

Uma poeira de túmulo
me sufoca o passado
sempre que visito o meu velho bairro.

A casa morreu
no lugar onde nasci:
a minha infância
não tem mais onde dormir.

Mas eis que,
de um qualquer pátio,
me chegam silvestres risos
de meninos brincando.

Riem e soletram
as mesmas folias
com que já fui soberano
de castelos e quimeras.

Volto a tocar a parede fria
e sinto em mim o pulso
de quem para sempre vive.

A morte
é o impossível abraço da água.



O CHORO DE ÁFRICA 
Agostinho Neto


O choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas
nos batuques choro de África
nos sorrisos choro de África
nos sarcasmos no trabalho choro de África

Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda
no círculo das violências
mesmo na magia poderosa da terra
e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas
e das hemorragias dos ritmos das feridas de África

e mesmo na morte do sangue ao contato com o chão
mesmo no florir aromatizado da floresta
mesmo na folha
no fruto
na agilidade da zebra
na secura do deserto
na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos
mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens

o choro de séculos
inventado na servidão
em historias de dramas negros almas brancas preguiças
e espíritos infantis de África
as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas

o choro de séculos
onde a verdade violentada se estiola no circulo de ferro
da desonesta forca
sacrificadora dos corpos cadaverizados
inimiga da vida

fechada em estreitos cérebros de maquinas de contar
na violência
na violência
na violência

O choro de África e' um sintoma

Nos temos em nossas mãos outras vidas e alegrias
desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas - por nós!
E amor
e os olhos secos.




Comboio africano
Agostinho Neto

Um comboio
subindo de difícil vale africano
chia que chia
lento e caricato

Grita e grita

quem esforçou não perdeu
mas ainda não ganhou

Muitas vidas
ensoparam a terra
onde assenta os rails
e se esmagam sob o peso da máquina
e no barulho da terceira classe

Grita e grita

quem esforçou não perdeu
mas ainda não ganhou

Lento caricato e cruel
o comboio africano…



O Voo do Jika 
  Ondjaki

O Jika era o mais novo da minha rua. Assim: o Tibas era o mais velho, depois havia o Bruno Ferraz, eu e o Jika. Nós até às vezes lhe protegíamos doutros mais-velhos que vinham fazer confusão na nossa rua. Hoje pensar no Jika é lembrar-me dele com muita ternura. Por várias coisas.
O almoço na minha casa era perto do meio-dia. Às vezes quase à uma. Ao meio-dia e quinze, o Jika tocava à campainha.
- O Ndalu está? - perguntava à minha irmã ou ao camarada António.
- Sim, está.
- Chama só, faz favor.
Eu interrompia o que estivesse a fazer, descia.
- MôJika, comé?
- Ndalu, vinha te perguntar uma coisa.
- Diz.
- Hoje num queres me convidar pra almoçar na tua casa?
- Deixinda ir perguntar à minha mãe.
Entrei. O Jika ficou ansioso na porta, aguardando a resposta. Quase sempre a minha mãe dizia sim. Só se fosse mesmo maka de pouca comida, ou muita gente que já estava combinada para o almoço. Se a Avó Chica viesse, ia trazer também a Helda, e assim já não ia dar. Mas normalmente a minha mãe dizia mesmo «sim». E ficava a rir.
- A minha mãe disse que podes - eu disse também contente.
- Ah é? - ele pareceu surpreendido. - E a que horas é que vocês vão almoçar?
- Ao meio-dia e meia, Jika.
- Então vou pedir na minha mãe.
Deixei a porta aberta. O Jika devia voltar sem demora quase nenhuma. Ouvi ele gritar contente, cá de baixo, na direcção da janela do quarto da mãe dele:
- Maaaaãe!, a tia Sita me convidou pra almoçar na casa dela. Posso?
- Podes. Mas vem mudar essa camisa suada.
O Jika deu uma esquindiva, fingiu que já tinha mudado, veio a correr numa transpiração respirada. Contente. Olhos do miúdo que ele era. Fosse o melhor programa da semana dele. E eu, mesmo miúdo candengue, fiquei a pensar nas razões do Jika não gostar nada de almoçar na própria casa dele.
O Jikatava habituado a muita gasosa. Nesse tempo, se houvesse gasosa na minha casa era pra dividir. Como nós éramos três, eu e duas irmãs, quando o Jika vinha almoçar, até a divisão corria melhor. Ele por vezes queria fugir desse ritual:
- Tia Sita, posso beber uma gasosa sozinho?
- Sozinho bebes na tua casa - a minha mãe respondeu. - Aqui divide-se.
Depois do almoço, o Jika disse que ia a casa dele buscar «uma coisa». Eu fiquei à espera, no portão aberto. Prometeu não demorar. Voltou com a tal coisa escondida debaixo do braço, e entrámos rapidamente na minha casa. Subimos ao primeiro andar, fomos até ao quarto da minha irmã Tchi, e saltámos da varanda para uma espécie de telhado. Aproximámo-nos da berma. Lá em baixo estava a relva verde do jardim. O Jika abriu um muito, muito pequenino guarda-chuva azul.
- Põe a mão aqui - ensinou-me. - Agora podemos saltar.
- Tens a certeza? - olhei lá para baixo.
- Vamos só.
E saltámos.
Hoje lembrar isso faz-me cair num brilho de lágrimas antigas e sorriso tipo cacimbo sonhado ou algo que fosse igual a isso mesmo. A infância é tão bonita. Caímos juntos na relva, magoamo-nos um bocadinho, mas sobretudo rimos. Mas o Jika teve outra ideia.
- Calmo só, môNdalu. Vou na minha casa buscar um maior.
- Não, Jika, desculpa lá. Vais saltar sozinho, eu já num vou saltar mais de guarda-chuva.
- Nem num bem grande que tenho, daqueles da praia, anti-sol e tudo, colorido tipo arco-íris?
- Nem esse!
O Jika ficou desanimado. Sem outras propostas para brincadeiras perigosas, decidiu ir pra casa. Ao cruzar o portão, falou ainda:
- Posso te perguntar uma coisa?
- Diz,Jika.
- Amanhã num queres me convidar pra almoçar na tua casa?




A televisão mais bonita do mundo

Sempre que era para ir a algum lugar de demorar, o tio Chico dizia que íamos à «casa andeia». Nunca percebi aquilo. Era uma dica dos mais-velhos. Nem mesmo a tia Rosa fazia só o favor de me explicar. Nada. Todos riam e eu apanhava do ar. Nessa noite tio Chico falou:
-Dalinho, vamos à casa andeia.
Deviam ser umas sete da noite e fazia frio de cacimbo fresco.
Isso da «casa andeia» muitas vezes era entrão ficarmos sentados num bar com os mais-velhos a beber um monte de cerveja e a comer quase nada. Se havia outras crianças eu ainda ia brincar mas normalmente nem já isso. Os homens conversavam, a tia Rosa também bebia mas ficava muito tempo calada. Eu brincava um pouco se houvesse jardim ou mesmo na rua. Depois sentava-me no colo da tia Rosa e começava a «encher o saco», como dizia o tio Chico. Começava a perguntar se já íamos embora, dizia que tinha sono e fome, mas só me respondiam que estava quase a chegar a hora de irmos. E vinham mais cervejas. Muitas mais.
A cerveja era a bebida preferida do tio Chico. A cerveja em muita quantidade, para dizer bem as coisas. O tio Chico era uma pessoa que podia beber muita cerveja e não ficava bêbado, podia mesmo conduzir o carro dele nas calmas. Só não podia misturar. Um dia o tio Chico misturou vinho e whisky e depois mandou parar o carro que o filho dele ia a conduzir, começou a me abraçar e a falar à toa. Eu fiquei com vontade de chorar mas a tia Rosa veio me dizer que aquilo era normal. Mas se fosse só cerveja, acho que ninguém aguentava o tio Chico. Um dia, num desses lanches de fim de tarde, enquanto eu comia, ele, o amigo dele e a tia Rosa varreram assim uns trinta e nove copos de cerveja.
Desta vez o tio Chico disse que íamos à «casa andeia» mas era só a brincar. No caminho eu ouvi ele dizer à tia Rosa que íamos à casa do Lima buscar umas cadeiras para o quintal. O Lima era um senhor muito magrinho que também bebia bem, tinha os olhos sempre a brilhar e a boca sempre a sorrir. Era simpático o Lima, e devia ser amigo do tio Chico porque o tio Chico gostava de lhe chamar «o sacana do Lima». Chegámos à casa do sacana do Lima numa rua bem escura que era preciso cuidado quando andávamos para não pisar nas poças de água nem na dibinga dos cães. Eu ainda avisei a tia Rosa, «cuidado com as minas», ela não sabia que «minas» era o código para o cocó quando estava assim na rua pronto a ser pisado.
O Lima veio abrir a porta, os olhos dele brilhavam muito e trazia já na mão uma nocal bem gelada. Passou a garrafa para a mão esquerda e apertou a mão de todo o mundo, mesmo da tia Rosa, e a mão dele estava muito gelada. Isso era bom na casa do Lima, as bebidas estavam sempre a estalar, eu assim me imaginei já a saborear uma fanta bem gelada. E me deram mesmo.
Ainda estávamos no quintal, o Lima mostrou ao tio Chico as tais cadeiras encomendadas. O Lima vendia mobílias muito feias, com um aspecto assim de cadeiras que os mais-velhos adormecem quando estão na casa de alguém com um funeral e o morto também. Eu não gostava dos móveis que o Lima vendia, mas aquelas cadeirasaté eram fixes, pintadas de uma cor clara com fitas assim de um plástico verde. Da cor da cadeira comprida, verde também, que estava sempre no quintal da minha casa. Mas o tio Chico não gostou muito, disso que estavam mal soldadas e que aquilo era perigoso. O Lima riu, mas o tio Chico não estava a brincar.
-Ó meu sacana, já viste se eu sento aí a minha sogra e ela cai no chão, como é que tu vais ficar quando eu te der a noticia?
O Lima transpirava. Passou a mão na testa, olhou a cadeira.
-A malta dá um jeito nisso depois, não te preocupes. Entra, Chico.
Entrámos todos, mas até tenho que dizer aqui uma coisa. Nessa altura, em Luanda, não apareciam muitos brinquedos nem coisas assim novas. Então nós crianças, tínhamos sempre o radar ligado para qualquer coisa nova. Mal entrámos no quintal, vi uma caixa de papelão bem grande e restos de esferovite no chão. Isso só podia significar uma coisa: havia material novo naquela casa, podia ser fogão, geleira ou outra coisa qualquer, e mesmo acho que a razão de estão toda a gente com bebidas na mão. Eu tinha pensado isso tudo, mas calado e, quando entrámos, entendi; na estante, havia uma televisão nova tipo um bebe daqueles acabados de nascer. Os olhos do Lima brilharam mais ainda:
-Olha lá esta maravilha, Chico.
Foi buscar com a mão ainda fresca da cerveja um manual de instruções dentro de um plástico que cheirava a novo. Eu já nem liguei mais à gasosa, fiquei a olhar a estante com bué fotos da família do Lima.
Mandaram-nos sentar. O Lima carregou no botão e nada. Ele transpirava. Ficou triste de repente. Mexeu na tomada, acendeu e apagou a luz da sala. O tio Chico com a cerveja dele. A tia Rosa de braços cruzados. Eu à espera da imagem a qualquer momento. Olhei o cinzento da televisão e umas três luzes apareceram de repente como se fossem um semáforo maluco e tive a certeza que aquela era mesmo a televisão mais bonita do mundo. Fez um ruído tipo animal a respirar e acendeu devagarinho. Não consegui ficar calado e disse bem alto: «chéeeeeee, essa televisão é bem esculú!» e todos riram do meu espanto assim sincero: era a primeira televisão a cores que eu via na minha vida.
A imagem apareceu bem nítida e cheia de cores. Era lindo e eu nunca tinha reparado que um apresentador de televisão podia vestir uma roupa com tantas cores. Lembro-me ainda hoje: estava a dar o noticiário em língua nacional tchokwe. Ninguém entendia nada, baixaram o som. A tia Rosa disse-me «fecha a boca, vai entrar mosca», e todos riram outra vez. Não me importei.
Falaram de novo das cadeiras. O Lima dizia tudo que sim, que podia ser resolvido. Mexeu nos botões da televisão e a cor ficou ainda mais viva. Na imagem tudo já estava misturado, parecia um quadro molhado com aguarelas bem exageradas. Pensei nos meus primos, e essa hora lá na casa de Praia do Bispo, com a televisão da avó Agnette a preto-e-branco, e aquele plástico azul que até hoje não sei para que servia. Quando eu contasse da televisão a cores exageradas na casa do Lima, os primos iam me acreditar, ou será que todos iam rir e me chamar mentiroso com força?

Fiquei com inveja dos filhos do Lima que todos os dias iam ver cores naquela televisão a core: a telenovela Bem-Amado com o Odorico e o Zeca Diabo, o Verão Azul com o Tito e o Piranha, os bonecos animados do Mitchi, o Gostavo com três fios de cabelo e até a Pantera Cor-de-Rosa com o cigarro bem comprido. «Tudo a cores, com uma aguarela bem bonita», pensei, enquanto a tia Rosa me fazia festinhas na cabeça.








quarta-feira, 25 de setembro de 2013

7ª Oficina: Cavaleiros e mia senhor fremosa: a sonorosa Idade Média

Nos primeiros séculos da literatura de língua portuguesa (XIII-XV), o idioma ainda se construía como galaico-português, e orbitava assuntos da corte, de reis e heróis. Como sétima oficina, a se realizar no dia 28/09, às 08h, no Auditório da UFFS, vai-se fazer uma viagem no tempo passado, saboreando a linguagem e formas da Idade Média. Inicialmente, pela pena de Fernão Lopes, episódios de reis e heróis tomarão parte. Depois, as cantigas trovadorescas embalarão amores e escárnios. Em seguida, mostrar-se-á o ciclo arturiano, com a Demanda do Santo Graal. Por fim, nas alegorias de Gil Vicente, os tipos sociais e religiosos desfilarão para ligar-se à realidade.


CAPITULO XLIV - Como foi trasladada Dona Ignez para o mosteiro de Alcobaça, e da morte d'el-rei Dom Pedro.

   Porque semelhante amor, qual el-rei Dom Pedro houve a Dona Ignez, raramente é achado em alguma pessoa, porém disseram os antigos que nenhum é tão verdadeiramente achado, como aquelle cuja morte não tira da memoria o grande espaço do tempo. E se algum disser que muitos foram já, que tanto e mais que elle amaram, assim como Adriana, e Dido, e outras que não nomeamos, segundo se lê em suas epistolas, responde-se que não falamos em amores compostos, os quaes alguns autores abastados de eloquencia, e florescentes em bem ditar, ordenaram segundo lhes prouve, dizendo em nome de taes pessoas razões que nunca nenhuma d'ellas cuidou; mas falamos d'aquelles amores que se contam e lêem nas historias, que seu fundamento teem sobre verdade.
  Esse verdadeiro amor houve el-rei Dom Pedro a Dona Ignez, como se d'ella namorou sendo casado e ainda infante, de guisa que, pero d'ella no começo perdesse vista e fala, sendo alongado, como ouvistes, que é o principal azo de se perder o amor, nunca cessava de lhe enviar recados, como em seu logar tendes ouvido. Quanto depois trabalhou pela haver, e o que fez por sua morte, e quaes justiças n'aquelles que em ella foram culpados, indo contra seu juramento, bem é testemunho do que nós dizemos.

            E sendo lembrado de lhe honrar seus ossos, pois lhe já mais fazer não podia, mandou fazer um moimento de alva pedra, todo mui subtilmente obrado, pondo elevada sobre a campa de cima a imagem d'ella, com corôa na cabeça, como se fôra rainha. E este moimento mandou pôr no mosteiro de Alcobaça, não á entrada, onde jazem os reis, mas dentro na egreja, á mão direita, a cerca da capella-mór.
     E fez trazer o seu corpo do mosteiro de Santa Clara de Coimbra, onde jazia, o mais honradamente que se fazer pode, cá ella vinha em umas andas, muito bem corrigidas para tal tempo, as quaes traziam grandes cavalleiros, acompanhadas de grandes fidalgos, e muita outra gente, e donas, e donzellas e muita clerezia.
      Pelo caminho estavam muitos homens com cirios nas mãos, de tal guisa ordenados, que sempre o seu corpo foi, por todo o caminho, por entre cirios accesos; e assim chegaram até ao dito mosteiro, que eram d'alli dezesete leguas, onde com muitas missas e grão solemnidade foi posto seu corpo n'aquelle moimento. E foi esta a mais honrada trasladação que até áquelle tempo em Portugal fôra vista.
     Semelhavelmente mandou el-rei fazer outro tal moimento, e tambem obrado, para si, e fêl-o pôr a cerca do seu d'ella, para quando acontecesse de morrer o deitarem n'elle.
      E estando el-rei em Estremoz, adoeceu de sua postremeira dôr, e jazendo doente, lembrou-se como, depois da morte de Alvaro Gonçalves e Pero Coelho, elle fôra certo que Diogo Lopes Pacheco não fôra em culpa da morte de Dona Ignez, e perdoou-lhe todo queixume que d'elle havia, e mandou que lhe entregassem todos seus bens: e assim o fez depois el-rei Dom Fernando, seu filho, que lh'os mandou entregar todos, e lhe alçou a sentença, que el-rei seu padre contra elle passára, quanto com direito poude.
        E mandou el-rei em seu testamento, que lhe tivessem em cada um anno, para sempre, no dito mosteiro, seis capellães que cantassem por elle cada dia uma missa officiada, e sairem sobre ella com cruz e agua benta. E el-rei Dom Fernando, seu filho, por se isto melhor cumprir, e se cantarem as ditas missas, deu depois ao dito mosteiro, em doação por sempre, o logar que chamam as Paredes, termo de Leiria, com todas as rendas e senhorio que n'elle havia.

            E deixou el-rei Dom Pedro, em seu testamento, certos legados, a saber: á infante Dona Beatriz, sua filha, para casamento, cem mil libras; e ao infante Dom João, seu filho, vinte mil libras; e ao infante Dom Diniz, outras vinte mil; e assim a outras pessoas.

            E morreu el-rei Dom Pedro uma segunda-feira de madrugada, dezoito dias de janeiro da era de mil e quatrocentos e cinco annos, havendo dez annos e sete mezes e vinte dias, que reinava, e quarenta e sete annos e nove mezes e oito dias de sua idade. E mandou-se levar áquelle mosteiro que dissemos, e lançar em seu moimento, que está junto com o de Dona Ignez.
        E porquanto o infante Dom Fernando, seu primogenito filho, não era então ahi, foi el-rei detido e não levado logo, até que o infante veiu; e á quarta-feira foi posto no moimento.
       E diziam as gentes, que taes dez annos nunca houve em Portugal, como estes que reinára el-rei Dom Pedro.


CRÔNICA DE D. PEDRO I
CAPITULO XXXI - Como Diogo Lopes Pacheco escapou de ser preso, e foram entregues os outros, e logo mortos cruelmente.

 (...)      Quando el-rei de Castella soube que Diogo Lopes não fôra tomado, houve grão queixume e não poude mais fazer: então enviou Alvaro Gonçalves e Pero Coelho, bem presos e arrecadados, a el-rei de Portugal, seu tio, segundo era ordenado entres elles. E quando chegaram ao extremo, acharam ahi Mem Rodriguez Tenorio, e os outros castelhanos, que lhe el-rei Dom Pedro enviava. E alli dizia depois Diogo Lopes, falando n'esta historia, que se fizera o troco de burros por burros.

            E foram levados a Sevilha, onde el-rei então estava, aquelles fidalgos que já nomeámos, e alli os mandou el-rei matar a todos.

            A Portugal foram trazidos Alvaro Gonçalves e Pero Coelho, e chegaram a Santarem, onde el-rei era. El-rei, com prazer de sua vinda, porém mal magoado porque Diogo Lopes fugira, os saiu fóra a receber, e, sanha cruel, sem piedade os fez por sua mão metter a tormento, querendo que lhe confessassem quaes foram na morte de Dona Ignez culpados, e que era que seu padre tratava contra elle, quando andavam desavindos por azo da morte d'ella. E nenhum d'elles respondeu a taes perguntas cousa que a el-rei prouvesse.

            E el-rei, com queixume, dizem que deu um açoute no rosto a Pero Coelho, e elle se soltou então contra el-rei em deshonestas e feias palavras, chamando-lhe traidor, á fé perjuro, algoz e carniceiro dos homens. E el-rei, dizendo que lhe trouxessem cebola, vinagre, e azeite para o coelho, enfadou-se d'elles, e mandou-os matar.

            A maneira de sua morte, sendo dita pelo miudo, seria mui estranha e crua de contar, cá mandou tirar o coração pelos peitos a Pero Coelho, e a Alvaro Gonçalves pelas espaduas. E quaes palavras houve e aquelle que lh'o tirava, que tal officio havia pouco em costume, seria bem dorida cousa de ouvir. Emfim, mandou-os queimar. E tudo feito ante os paços onde elle pousava, de guisa que comendo olhava quanto mandava fazer.

            Muito perdeu el-rei de sua boa fama por tal escambo como este, o qual foi havido, em Portugal e em Castella, por mui grande mal, dizendo todos os bons que o ouviam, que os reis erravam mui muito indo contra suas verdades, pois que estes cavalleiros estavam, sobre segurança, acoutados em seus reinos.





A dona fremosa do Soveral
Lopo Lias

Outrossitrobou a ũa dona, que nom havia prez de mui salva; e el disse que lhi dera de seus dinheiros por preit'atal que fezesse por elalgũa cousa, e pero nom quis por el fazer nada; por en fez estes cantares de maldizer.

A dona fremosa do Soveral
há de mi dinheiros per preit'atal:
queveess'a mi, u nomhouvess'al,
um dia talhado, a cas Dom Corral;
e é perjurada,
canom fez en nada;
e baratou mal,
ca desta negada
será penhorada
quedobr'o sinal.

Se m'ela crever, cuido-m'eu, dar-lh'-ei
o melhor conselho que hoj'eu sei:
dê-mi meu haver e gracir-lho-ei;
[e] se mi o nom der, penhorá-la-ei:
ca mi o tem forçado,
docorp'alongado,
nomlho sofrerei;
mais, polo meu grado,
dar-mi-á bem dobrad'o
sinal que lh'eu dei.



A maior coita que eu no mund'hei
Airas Carpancho

A maior coita que eu no mund'hei:
[a] meu amigo nom lh'ouso falar;
é amigo que nunca desejar
soub'outra rem, senom mi, eu o sei;
e, se o eu por mi leixar morrer,
serágramtort', e nom hei de fazer,

que lh'eu quisesse, bem, de coraçom,
qual a mim quer o meu, des que me viu;
enulh'amor nunca de mim sentiu
e foi coitado por mi desentom;
e, se o eu por mi leixar morrer,
serágramtort', e nom hei de fazer,

quelhi quisesse, bem - qual a mim quer
o meu, que tammuit'há que desejou
meu bem fazer, e nunca lhi prestou,
e será morto, se lh'eu nom valer,
e, se o eu por mi leixar morrer,
serágramtort', e nom hei de fazer

o maior torto que pode seer:
leixar dona seu amigo morrer.



Ando coitado por ver
João Lopes de Ulhoa

Ando coitado por veer
um home que aqui chegou,
que dizem que viu mia senhor;
edirá-me se lhe falou.
E falarei com elmuit'i
emquammuit'há que a nom vi.

Por amor de Deus, quen'o vir,
diga-lhe que sa prol será
de me veer. E veê'-l'-ei
porque a viu, e falar-mi-á.
 E falarei com elmuit'i
emquammuit'há que a nom vi.

Ca muito per há gram sabor,
quem senhor ama, de falar
en'ela, se acha com quem;
e por en vou aquel buscar!
E falarei com elmuit'i
emquammuit'há que a nom vi.

Pero sei eu dela, de pram,
canom m'enviou rem dizer,
mas do hom'hei eu gram sabor,
porque a viu, de o veer.
       E falarei com elmuit'i
      emquammuit'há que a nom vi.

Ca nunca vi, des que a vi,
outro prazer, se a nom vi.



Ciclo Arturiano
Demanda do Santo Graal
(século XIII)

25. Como os da mesa redonda tiveram agraça do Santo Graal
Grande foi a alegria e o prazer que os cavaleirosda távola redonda tiveram aqueledia, quando se viram todos reunidos. Esabei que, desde que a Távola Redondacomeçou, nunca todos assim foram reunidos, masaquele dia, sem falha, aconteceu queestavam lá todos, mas depois, nunca denovo estiveram.
Contra a noite, depois de vésperas, quandose assentaram às mesas, ouviram virum trovão tão grande e tão espantoso,que lhes pareceu que todo o castelo caía.E logo depois que o trovão deu, entrouuma tão grande claridade, que tornou ocastelo duas vezes mais claro que era antes.E quantos no palácio estavam sentados,logo todos foram repletos da graçado Espírito Santo e começaram a olharuns aos outros, e viram-se muito maisformosos, muito mais do que costumavamser, e maravilharam-se muito do queaconteceu e não houve quem pudessefalar por muito grande tempo, antes estavamcalados e olhavam-se uns aos outros.E eles assim estando sentados, entrouno castelo o santo Graal, coberto de um
veludo branco; mas não houve um quevisse quem o trazia. E assim que entrou,foi o palácio todo repleto de bom odor,como se todos os perfumes do mundo láestivessem. E ele foi para o meio do paço,de uma parte e da outra, ao redor dasmesas. E por onde passava, logo todas asmesas ficavam repletas de tal alimento,qual em seu coração desejava cada um.E depois que teve cada um o de que houve mister a seu prazer, saiu o santo Graal do palácioque ninguém soube o que fora dele,nem por qual porta saíra. E os que antesnão podiam falar, falaram então. E deramgraças a Nosso Senhor, que lhes fazia tãogrande honra e os confortara e abundarada graça do Santo Vaso. Mas sobre todosaqueles que alegres estavam, mais oestava rei Artur, porque maior graça lhemostrara Nosso Senhor que a nenhum reique antes reinasse em Grã-Bretanha.Disto foram maravilhados quantos lá estavam,porque bem lhes pareceu quese lembrara Deus deles, e falaram muitodisso. E o rei disse aos que perto dele estavam:
– Com certeza, amigos, muito devíamosestar alegres, que Deus nos mostrou tãogrande sinal de amor, que em tão boa festacomo hoje, de Pentecostes, nos deu acomer de seu santo celeiro.

26. Como Galvão começou a demanda do santo Graal
Galvão que sentava diante do rei, disse:
- Senhor, ainda há outra cousa que não imaginais. Sabei que não há cavaleiro no paço que não houvesse de comer o que pensou cada um em seu coração. E isto nunca houve em nenhuma corte, senão na casa do reiPeles. Mas tanto fomos enganados que o não vimos senão coberto. Quanto em mim é, prometo agora a Deus e a toda cavalaria que, de manhã, se me Deus quiser atender, entrarei na demanda do santo Graal, assim que a manterei um ano e um dia e, porventura mais; e ainda mais digo: jamais voltarei à corte, por cousa que aconteça, até que melhor e mais a meu prazer veja o que ora vi; mas se não puder ser, voltarei então.

27. Como os da mesa redonda começaram a demanda do santo Graal
Quando os cavaleiros da távola redonda ouviram que aquele era Galvão e viram o que disse, pararam até de comer; mas assim que as mesas foram tiradas, foram todos ante o rei e fizeram aquela promessa que fizera Galvão, e disseram que jamais deixariam de andar até que vissem a tal mesa e tão saborosos manjares e tão bem preparados, como eram aqueles que aquele dia comeram, se era cousa que lhes outorgada fosse por dificuldade e por esforço que sofrer pudessem.


109. Como a filha do rei Brutos começou a amar Galaaz
Aquele castelo tinha onome Brut e seria bem assentado, se tivesse provisão de água. E o senhor daquelecastelo era rei e tinha o nome Brutos, por amor daquele que o povoara primeiro. E sabeique o domínio daquele castelo se estendia por todos os lados uma jornada. AqueleBrutos, que então reinava, era um dos bons cavaleiros do mundo e muito rico àmaravilha, e havia muito conquistado por sua cavalaria, e tinha uma filha de quinzeanos que era a mais formosa donzela do reino de Logres. E naquele momento que oscavaleiros vieram, estava o rei encostado a uma janela em seu palácio. E quando os viuassim armados vir e sem companhia, viu que eram cavaleiros andantes, e ficou muitoalegre com eles, porque muito amara sempre a cavalaria e aqueles que a ela sededicavam. Então lhes mandou dizer por dois cavaleiros que vieram com ele pousar,porque não queria que pousassem com outrem. Quando Galaaz e Boorz ouviram seurecado, consideraram que era ensinado a boa barba e agradeceram-lho muito e foramcom os cavaleiros. E depois que estavam dentro e foram desarmados, o rei os fezassentar perto de si e fez-lhes muita honra e começou a perguntar de seus feitos.E eleslhe disseram um pouco de algumas coisas. E a filha do rei Brutos, que era muitoformosa, olhou muito tempo Galaaz e parecia tão formoso e tão perfeito que o amouentranhadamente, como nunca amou tanto nada no mundo, que não tirava dele os olhos;e quanto mais o olhava, mais gostava dele e mais o amava.


110. Como a ama perguntou à donzela porque chorava
Assim amou a donzelaGalaaz, mas nunca o vira nem soubera que coisa era amor, e olhava Galaaz e prezava-otanto em seu coração, mais que todas as coisas e como nunca mulher homem prezou; epor isso lhe parecia que, se o não tivesse à sua vontade, morreria. E por isto o cuidavaela conseguir muito facilmente, porque o cavaleiro era muito jovem e muito formoso. Eela cuidava que de bom grado concordaria com tal coisa, porque ela era das maisformosas mulheres do reino de Logres. E isto a confortava, porque ele era cavaleirojovem. E por isso cuidava acabar mais cedo seu desejo. Mas estava em seu íntimo tãotriste porque, se fizesse algum intento de que o queria amar, isto lhe seria tomado pormal, se o soubesse; e, se alguma coisa não fizesse para ter aquilo que desejava, o nãopoderia suportar. Isto imaginou a donzela, enquanto seu pai estava falando com oscavaleiros. E depois pensou tanto que não pôde mais, foi para a câmara e deixou-se cairem seu leito e começou a fazer tão grande lamentação, como se tivesse seu pai mortodiante de si. Mas não gritava, chorava tão intimamente que maravilha era. E ela assimfazendo seu lamento, entrou sua ama, que era mulher de grande experiência, que acriara desde pequena e a amava como se fosse sua filha. E quando viu a donzela chorartão sentidamente, maravilhou-se. E disse:
— Ai, senhora! O que tendes? Alguém vos fez algum pesar? Dizei, minhasenhora, por que chorais, e eu vos darei algum conselho, por que nunca estarei alegre,enquanto estiverdes triste.
(...)
— Eu amo tanto um destes cavaleiros andantes que aqui estão que, se o não tiverà minha vontade, não chegarei a amanhã, antes matarei com minhas mãos.
Quando a mulher ouviu isto, teve tão grande pesar que não soube o que fizesse,porque bem sabia que, se a donzela tivesse o cavaleiro à sua vontade, não podia ser queo rei não soubesse, cedo ou tarde; e quando soubesse que o cavaleiro com ela estava,eleera tão bravo que mataria a donzela e quantos a ajudassem nisso.

112. Como a ama disse à donzela que tivesse juízo
Então lhe disse a mulher:
— Ai, louca, mesquinha e infeliz, se é isto que me dizeis, ou perdestes o juízo,ou estais encantada, porque sois donzela de alta posição e sois tão formosa, e pondesvosso coração em tão pobre cavaleiro estranho, que não conheceis. E se esta noite aquiestiver, não sucederá assim aqui de manhã, nem ficará aqui, por lhe dar vosso pai todasua terra. Guardai o que dizeis e o que pensais e o que vos poderá acontecer. Ai, louca, ecomo ousastes isto pensar? Certamente, se vosso pai souber, todo o mundo não vos
poderá valer, que vos não corte a cabeça.
Quando a donzela ouviu isto, ficou tão espantada que bem quisera estar morta,porque do cavaleiro não podia livrar o coração de modo algum, antes se esforçaria parater de todo o modo o que pensava. De novo, desconfortava-a muito a braveza de seu pai.A donzela, que nestas coisas pensava, chorava ainda. E quando falou, disse:
— Ai, desgraçada, infeliz e a mais maldita coisa do mundo, maldita seja a horaem que eu nasci!
— Ora, dizei-me – disse a ama -, parece-vos bom conselho o que vos dei delivrardes vosso coração daquele cavaleiro?
— Sim – disse ela – a quem pudesse fazer de seu coração o que quer.
— Convém – disse ela – que o façais, se não quereis ser ludibriada.
— Dona – disse – eu o farei, pois vejo que outra coisa não se prepara agora paraacontecer.

113. Como a donzela fala consigo em amor por Galaaz
Assim disse a donzelapara se encobrir, mas outra coisa tinha no coração e mostrou aquela tarde. Depois queambos os cavaleiros numa câmara, a donzela, que bem cuidava que já dormiam e quesabia o leito de Galaaz, saiu de seu leito em trajes de dormir, embora muito vergonhosae com grande pesar de que havia de fazer contra sua vontade o que o amor lhe mandava,porque, por sua má sorte, tinha a donzela de rogar o cavaleiro. E depois que ela veio àcâmara onde eles deitavam, entrou e ficou tão espantada que não soube o que fazer. Mastornou em seu primeiro pensar que o amor lhe aconselhava e esforçou-se tanto, contrasua vontade, que a foi a Galaaz e ergueu o cobertor e deitou-se ao lado dele. E Galaaz,que dormia muito pesadamente, pelo trabalho que tivera, não despertou. Quando adonzela viu que dormia, não soube o que fizesse, porque, se o despertasse, tê-lo-ia porloucura e que assim costumava fazer aos outros que aí vinham, e haveria nisso maiorsanha, quando visse que assim se denodava, sem rogo. Então disse dentro de si, em vozbaixa:
— Infeliz, ludibriada sou e aviltada e nunca terei honra em nada que faça,quando, para meu pecado e para meu feito e sem pedir, vim deitar com este cavaleiroestranho, que não sabe nada da minha vida.
Depois disse:
— Ai, louca e néscia, que é isto que dizes? Tu não poderás fazer nada por essecavaleiro que não te sejas vergonha e desonra.
E ela cuidava que, depois que fosse deitar ao lado dele, cumpriria ele seu intento;e de modo algum não cuidava, pois ela era tão formosa e de tão alta posição, que elefosse tão vilão, que não cumprisse sua vontade. Então chegou-se a ele mais que antes epôs a mão nele muito devagar para desperta-lo; mas, quando sentiu a estamenha que ocavaleiro vestia, porque sem estamenha nunca ele estava nem de noite nem de dia, elaficou tão espantada que disse logo:
— Ai, infeliz, que é isso que vejo? Não é ele cavaleiro dos cavaleiros andantes,que dizem que são namorados, mas é daqueles cuja vida e alegria está sempre empenitência, pela qual lhes advém grande bem para o outro mundo, e perdoa Deusaqueles que erro tiverem feito contra ele. E por nada – disse ela – posso acabar com eleo que queria. E como quer que este cavaleiro seja alegre para parecer, grande é osofrimento de sua carne e mostra bem que o seu coração pensa em coisa diferente doque a minha carne mesquinha infeliz já pensava. Este é dos verdadeiros cavaleiros dademanda do santo Graal e em má hora foi tão formoso para mim.Então começou a chorar e fazer seu lamento o mais baixo que pôde, para quenão a ouvissem.

114. Como dom Galaaz achou a donzela consigo no leito
Ao cabo de algumtempo, despertou-se Galaaz e virou-se para a donzela, e, quando a sentiu, maravilhou-see abriu os olhos. E quando viu que era donzela, espantou-se e ficou muito sanhudo eafastou-se dela quanto lhe o leito permitiu, persignou-se e disse:
— Ai,donzela! Quem voz mandou aqui certamente mau conselho vos deu; e eucuidava que de outra natureza éreis vós. E rogo-vos, por cortesia e por vossa honra, quevos vades daqui, por que, com certeza, o vosso louco pensar não entenderei eu, se Deusquiser, pois mais devo recear perigo de minha alma do que fazer vossa vontade.

115. Como a donzela ameaçava Galaaz
Quando a donzela ouviu isto teve tãogrande pesar que não soube o que fizesse, porque a resposta de Galaaz que ela amavasobejo lhe fez perder o senso e todo o ânimo. E ele lhe disse:
— Ai, donzela! Desatinada estais; lembrai-vosde vossa situação e olhai a altura de vossa linhagem ede vosso pai e fazei que não tomem desonra por vós.
Quando a donzela ouviu isto, respondeu comomulher fora do juízo:
— Senhor, não há necessidade disso, pois quetão pouco me prezais, que de modo algum não quereissenão matar-me. E a morte está comigo logo, porqueme matarei com minha mãos e terei por isto maiorpecado do que se me tivésseis convosco, porque sois arazão de minha morte, e vós ma podeis impedir, sequiserdes.
E Galaaz não soube o que dissesse, e disse àdonzela que, se se matasse como dizia e por tal razão,bem entendesse que não daria nada por sua morte; epor outro lado lhe disse que, se fosse a mais formosaque Nosso Senhor tivesse feito, ele não olharia maispara ela; e disse-lhe que mais lhe valeria ficar emvirgindade, porque se lhe os outros fizesse tanto comoele, bem poderia ser que morresse virgem. E a donzelaque estava toda paralisada, quando viu que de Galaaznão poderia ter seu prazer, disse:
— Como? cavaleiro, ainda quereis ser tão vilãoque me não quereis outra coisa fazer?
— Não – disse ele.
— Bem vos digo, e bem estai seguro, por boa-fé – disse ela – isto será loucura,porque morrereis antes que daqui saias.
— Não sei – disse ele – o que será; mas se fosse isso, antes eu quereria morrerfazendo lealdade do que escapar e cometer um erro, o que não quereria.

116. Como a donzela se matou por amor de Galaaz
Depois que ouviu isto, nãoesperou mais, antes saiu do leito e foi correndo à espada de Galaaz, que pendia à entradada porta da câmara, e sacou-lhe da bainha e pagou-a com ambas as mãos e disse aGalaaz:
— Senhor cavaleiro, vedes aqui o engano que havia nos meus primeiro amores.E mau dia fostes tão formoso que tão caro me convirá comprar vossa beleza.
Quando Galaaz viu que ela já tinha a espada na mão e que se queria ferir com ela,saiu do leito todo espantado e gritou-lhe:
— Ai, boa donzela! Tem um pouco de paciência e não te mates assim, que fareitodo teu prazer.
E ela, que estava tão aflita que não poderia mais, respondeu com raiva:
— Senhor cavaleiro, tarde mo dissestes.Então ergueu a espada e feriu-se com toda a sua força por meio do peito demodo que a espada atravessou. E caiu por terra morta, que não falou mais nada.




O VELHO DA HORTA (Gil Vicente)
Esta seguinte farsa é o seu argumento que um homem honrado e muito rico, já velho, tinha uma horta: e andando uma manhã por ela espairecendo, sendo o seu hortelão fora, veio uma moça de muito bom parecer buscar hortaliça, e o velho em tanta maneira se enamorou dela que, por via de uma alcoviteira, gastou toda a sua fazenda. A alcoviteira foi açoitada, e a moça casou honradamente. Entra logo o velho rezando pela horta. Foi representada ao mui sereníssimo rei D. Manuel, o primeiro desse nome. Era do Senhor de M.D.XII.
VELHO: Pater noster criador, Qui es in coelis, poderoso, Santificetur, Senhor, nomen tuum vencedor, nos céu e terra piedoso. Adveniat a tua graça, regnum tuum sem mais guerra; voluntas tua se faça sicut in coelo et in terra. Panem nostrum, que comemos, cotidianum teu é; escusá-lo não podemos; inda que o não mereceremos tu da nobis. Senhor, debita nossos errores, sicut et nos, por teu amor, dimittius qualquer error, aos nosso devedores. Et ne nos, Deus, te pedimos, inducas, por nenhum modo, in tentationem caímos porque fracos nos sentimos formados de triste lodo. Sed libera nossa fraqueza, nos a malo nesta vida; Amen, por tua grandeza, e nos livre tua alteza da tristeza sem medida.
Entra a MOÇA na horta e diz o VELHO:
 Senhora, benza-vos Deus,
MOÇA: Deus vos mantenha, senhor.
VELHO: Onde se criou tal flor? Eu diria que nos céus.
MOÇA: Mas no chão.
VELHO: Pois damas se acharão que não são vosso sapato!
 MOÇA: Ai! Como isso é tão vão, e como as lisonjas são de barato!
VELHO: Que buscais vós cá, donzela, senhora, meu coração?
MOÇA: Vinha ao vosso hortelão, por cheiros para a panela.
VELHO: E a isso vinde vós, meu paraíso. Minha senhora, e não a aí?
MOÇA: Vistes vós! Segundo isso, nenhum velho não tem siso natural.
VELHO :Ó meus olhinhos garridos, mina rosa, meu arminho!
MOÇA: Onde é vosso ratinho? Não tem os cheiros colhidos?
VELHO: Tão depressa vinde vós, minha condensa, meu amor, meu coração!
MOÇA: Jesus! Jesus! Que coisa é essa? E que prática tão avessa da razão!
VELHO: Falai, falai doutra maneira! Mandai-me dar a hortaliça. Grão fogo de amor me atiça, ó minha alma verdadeira!
MOÇA: E essa tosse? Amores de sobreposse serão os da vossa idade; o tempo vos tirou a posse.
VELHO: Mas amo que se moço fosse com a metade.
MOÇA: E qual será a desastrada que atende vosso amor?
VELHO: Oh minha alma e minha dor, quem vos tivesse furtada!
MOÇA: Que prazer! Quem vos isso ouvir dizer cuidará que estais vivo, ou que estai para viver!
VELHO: Vivo não no quero ser, mas cativo!
MOÇA:Vossa alma não é lembrada que vos despede esta vida?
VELHO: Vós sois minha despedida, minha morte antecipada.
MOÇA: Que galante! Que rosa! Que diamante! Que preciosa perla fina!
VELHO: Oh fortuna triunfante! Quem meteu um velho amante com menina! O maior risco da vida e mais perigoso é amar, que morrer é acabar e amor não tem saída, e pois penado, ainda que amado, vive qualquer amador; que fará o desamado, e sendo desesperado de favor?
MOÇA: Ora, dá-lhe lá favores! Velhice, como te enganas!
VELHO: Essas palavras ufanas acendem mais os amores.
MOÇA: Bom homem, estais às escuras! Não vos vedes como estais?
VELHO: Vós me cegais com tristuras, mas vejo as desaventuras que me dais.
MOÇA: Não vedes que sois já morto e andais contra a natura?
VELHO: Oh flor da mor formosura! Quem vos trouxe a este meu horto? Ai de mim! Porque, logo que vos vi, cegou minha alma, e a vida está tão fora de si que, partindo-vos daqui, é partida.
MOÇA: Já perto sois de morrer. Donde nasce esta sandice que, quanto mais na velhice, amais os velhos viver? E mais querida, quando estais mais de partida, é a vida que deixais?
VELHO: Tanto sois mais homicida, que, quando amo mais a vida, ma tirais. Porque meu tempo d’agora vai vinte anos dos passados; pois os moços namorados a mocidade
os escora. Mas um velho, em idade de conselho, de menina namorado... Oh minha alma e meu espelho!
MOÇA: Oh miolo de coelho mal assado!
VELHO: Quanto for mais avisado quem de amor vive penando, terá menos siso amando, porque é mais namorado. Em conclusão: que amor não quer razão, nem contrato, nem cautela, nem preito, nem condição, mas penar de coração sem querela.
MOÇA: Onde há desses namorados? A terra está livre deles! Olho mau se meteu neles! Namorados de cruzados, isso si!...
VELHO: Senhora, eis-me eu aqui, que não sei senão amar. Oh meu rosto de alfeni! Que em hora má eu vos vi.
MOÇA: Que velho tão sem sossego!
VELHO: Que garridice me viste?
MOÇA: Mas dizei, que me sentiste, remelado, meio cego?
VELHO: Mas de todo, por mui namorado modo, me tendes, minha senhora, já cego de todo em todo.
MOÇA: Bem está, quando tal lodo se namora.
VELHO: Quanto mais estais avessa, mais certo vos quero bem.
MOÇA: O vosso hortelão não vem? Quero-me ir, que estou com pressa.
VELHO: Que fermosa! Toda a minha horta é vossa.
MOÇA: Não quero tanta franqueza.
VELHO: Não pra me serdes piedosa, porque, quanto mais graciosa, sois crueza. Cortai tudo, é permitido, senhora, se sois servida. Seja a horta destruída, pois seu dono é destruído.
MOÇA: Mana minha! Julgais que sou a daninha? Porque não posso esperar, colherei alguma coisinha, somente por ir asinha e não tardar.
VELHO: Colhei, rosa, dessas rosas! Minhas flores, colhei flores! Quisera que esses amores foram perlas preciosas e de rubis o caminho por onde is, e a horta de ouro tal, com lavores mui sutis, pois que Deus fazer-vos quis angelical. Ditoso é o jardim que está em vosso poder. Podeis, senhora, fazer dele o que fazeis de mim.
MOÇA: Que folgura! Que pomar e que verdura! Que fonte tão esmerada!
 VELHO: N’água olhai vossa figura: vereis minha sepultura ser chegada.
(....)
Vem uma MOCINHA à horta e diz:
Vedes aqui o dinheiro? Manda-me cá minha tia, que, assim como no outro dia, lhe
mandeis a couve e o cheiro. Está pasmado?
VELHO: Mas estou desatinado.
MOCINHA: Estais doente, ou que haveis?
VELHO: Ai! Não sei! Desconsolado, que nasci desventurado!
MOCINHA: Não choreis! Mais mal fadada vai aquela!
VELHO :Quem
MOCINHA: Branca Gil.
VELHO: Como?
MOCINHA: Com cem açoites no lombo, uma carocha por capela, e atenção! Leva tão bom coração, como se fosse em folia. Que pancadas que lhe dão! E o triste do pregão – porque dizia: “Por mui grande alcoviteira e para sempre degredada”, vai tão desavergonhada, como ia a feiticeira. E, quando estava, uma moça que passava na rua, para ir casar, e a coitada que chegava a folia começava de cantar:
“ua moça tão fermosa que vivia ali à Sé...”
VELHO: Oh coitado! A minha é!



QUEM TEM FARELOS?( Gil Vicente)

Vai-se o Escudeiro e fica a Velha dizendo à filha:
Isabel tu fazes isto
tudo isto sai de ti
Isabel guar-te de mi
que tu tens a culpa disto.
Isabel: Pois si. Eu o fui chamar.
Velha :Ai Maria Maria rabeja.
Isabel: Trama a quem o deseja
nem espera desejar.
Velha: Que dirá a vezinhança?
Dize má molher sem siso
Isabel: Que tenho eu de ver co isso?
Velha: Como tens tam má criança.
Isabel :Algum demo valho eu
e algum demo mereço
e algum demo pareço
pois que cantam polo meu.
Vós quereis que me despeje
vós quereis que tenha modos
que pareça bem a todos
e ninguém nam me deseje?
Vós quereis que mate a gente
de fermosa e avisada
quereis que nam fale nada
nem ninguém em mi atente?
Quereis que creça e que viva
e nam deseje marido
quereis que reine Copido
e eu seja sempre esquiva?
Quereis que seja discreta
e que nam saiba d’amores
quereis que sinta primores
mui guardada e mui secreta?
Velha: Tomade-a lá. Ui Isabel
quem te deu tamanho bico
rostinho de cerolico
és tu moça ou bacharel?
Nam deprendeste tu assi
o verbo d’Anima Christe
que tantas vezes ouviste.
Isabel: Isso nam é pera mi.
Velha: E pois quê?
Isabel: Eu vo-lo direi:
ir ameúde ao espelho
e poer do branco e vermelho
e outras cousas que eu sei.
Pentear curar de mi
e poer a ceja em dereito
e morder por meu proveito
estes beicinhos assi.
Ensinar-me a passear
pera quando for casada
nam digam que fui criada
em cima d’algum tear.
Saber sentir um recado
e responder emproviso
e saber fingir um riso
falso e bem dissimulado.
Velha: E o lavrar Isabel?
Isabel: Faz a moça mui mal feita
corcovada contrafeita
de feição de meo anel.
E faz muito mau carão
e mau costume d’olhar.
Velha: Ui pois jeita-te ao fiar
estopa ou linho ou algodão.
Ou tecer se vem à mão.
Isabel: Isso é pior que lavrar.
Velha: Enjeitas tu o fiar?
Isabel: Que nam hei de fiar nam
eu sou filha de moleira
em roca me falais vós?
Ora assi me salve Deos
que tendes forte cenreira.
Velha: Aprende logo a tecer
entam bolir c’o fiado.
Isabel: Achais outro mais honrado
ofício pera eu saber?
Tecedeira viu alguém
que nam fosse boliçosa
cantadeira presuntuosa
e nam tem nunca vintém.
E quando lhe quebra o fio
renega coma beleguim.
Mãe deixai-me vós a mim
vereis como me atavio.
Isto vai sendo de dia
eu quero mãe almoçar.
Velha: Eu te farei amassar.
Isabel: Essa é outra fantesia.
E com isto se recolhem e fenece esta primeira farsa.
Finis.


terça-feira, 30 de julho de 2013

6ª Oficina: Pai: as faces do cuidado

Entre os símbolos continuamente usados na literatura, as figuras familiares aparecem como eixos norteadores. Se a mãe representa o amor incondicional, o pai, por sua vez, mostra-se como símbolo de proteção, guarda, justiça. Em homenagem ao Dia dos Pais, a sexta oficina do Longa Jornada Livro Adentro, a se realizar no dia 03/08, às 08 horas, no auditório da UFFS, orbitará essa pessoa que vê, nos filhos, a perpetuação de si mesmo. Com textos de Marcos Rey, Érico Veríssimo,Guerra Junqueiro e Mia Couto, o que se busca é mostrar que, nas múltiplas faces paternas, o que transparece é o cuidado e atenção com os filhos.




Pega Ladrão, Papai Noel! 
                                                    Marcos Rey
Ele não era bem um Papai Noel, era mais um Santa Claus, pois trabalhava numa cadeia de lojas multinacional, a Emperor Presentes e Utilidades Domésticas, aquela grande, da avenida. Consta, inclusive, que fez um curso de seis semanas nos próprios States para testar e aperfeiçoar sua tendência vocacional, obtendo boa nota, apesar de cantar o "Jingle Bell" com imperdoável sotaque latino-americano. Mas seu visual, mesmo sem uniforme, impressionou favoravelmente a banca examinadora: era gordo, como convém a um Papai Noel; tinha olhos da cor do céu e a capacidade de sorrir durante horas inteiras sem nenhum motivo aparente. Aliás, um Papai Noel é isso: uma mancha vermelha que sabe rir e às vezes fala.
— Você está ótimo! — disse-lhe o chefe da seção de brinquedos.
— As crianças vão adorá-lo!Era véspera de Natal e a Emperor andava preocupadíssima com as vendas, inferiores ao ano anterior. E preocupada com outra coisa, ainda: o incrível número de furtos, razão por que o Papai Noel além de sorrir e estimular as vendas teria que ser também um olheiro, um insuspeito fiscal de seção.
Ele passeava pelo atraente departamento de brinquedos eletrônicos, juntamente com seu sorriso, e acabara de passar a mão nos cabelos louros de um garotinho, quando viu. Viu o quê? Um homem, e mais que ele, sua mão surrupiando um trenzinho de pilha, imediatamente metido numa bolsa promocional da Emperor. Interrompendo em meio seu sorriso, Papai Noel deu um passo firme e fez voz de vigia:
— Por favor, me deixe ver essa bolsa!
Nem todo susto é paralisante: o homem, sem largar a bolsa, saiu em disparada pela seção de brinquedos, empurrando pessoas, chutando coisas, derrubando e pisando em brinquedos. Atrás desse furacão, seguia outro furacão, este encarnado, o Papai Noel aludido, que repetia em cores mais vivas os desastres provocados pelo primeiro. A cena prosseguiu com mais dramaticidade e ruídos na escadaria da Emperor, pois a seção de brinquedos era no sexto andar. No quarto pavimento Papai Noel chegou a grampear o ladrão pelo braço, mas este conseguiu escapar, livrando oito degraus entre o quarto e o segundo andares. Aí, novamente Papai Noel pôs a mão enluvada no fugitivo, mas um grupo de pessoas que saía do elevador poluiu a imagem e ele tornou a ganhar distância.
Na avenida a perseguição teve novos aspectos e emoções. A pista era melhor para corridas, mas ainda maior o número de pessoas e obstáculos. O ladrão logo à saída da loja chocou-se com uma mulher que carregava mil pacotes, pacotinhos e pacotões. Foram todos para o chão. Um propagandista de longas pernas de pau fez uma aterrissagem forçada, que o aeroporto de Congonhas teria desaconselhado devido ao mau tempo. O Papai Noel também empurrava, esbarrava e derrubava, aduzindo ao seu esforço o clássico "pega ladrão!", um refrão tão comum na cidade que não entendo como ainda não musicaram. Na primeira esquina, quase... Um carro bloqueou a fuga do homem, que ficou hesitante enquanto seu colorido perseguidor se aproximava em alta velocidade.
Quando o ladrão do brinquedo entrou numa galeria da Barão, os espectadores, digamos assim, tiveram a impressão de que tinham se livrado do Papai Noel. Mas a câmera 2 logo mostrou o santo velhinho entrando também na galeria com o mesmo ímpeto dos primeiros fotogramas. Todavia, embora corresse em milhas e o outro em quilômetros, não conseguia alcançá-lo.
Consta que Papai Noel perseguiu o ladrão inclusive no Minhocão, de ponta a ponta, onde é proibida a circulação de pedestres. Também sem resultado.
A história, que nem história é, podia acabar aqui, mas prefiro que acabe lá.
Lá, onde?
Naquele quarto de subúrbio.
Aquela noite, o ladrão, à meia-noite em ponto, deu para o filho o belo presente das lojas Emperor, o trenzinho de pilha, que tinha luzes diversas e até apitava, excessivamente incrementado para qualquer garoto pobre.
O menino, que sabia dos apuros do pai, não recebeu alegremente a maravilha eletrônica.
— Papai, o senhor não devia ter comprado.
— Mas não comprei.
— Ahn?
— Ganhei.
— De quem?
— De Papai Noel, ora. Bom cara. Nem precisei pedir. Ele correu atrás de mim e me deu o presente. Disse que a pilha dura três meses. Legal, não?




As mãos de meu filho
                                            Erico Verissimo
Todos aqueles homens e mulheres ali na platéia sombria parecem apagados habitantes dum submundo, criaturas sem voz nem movimento, prisioneiros de algum perverso sortilégio. Centenas de olhos estão fitos na zona luminosa do palco. A luz circular do refletor envolve o pianista e o piano, que neste instante formam um só corpo, um monstro todo feito de nervos sonoros.
Beethoven.
Há momentos em que o som do instrumento ganha uma qualidade profundamente humana. O artista está pálido à luz de cálcio. Parece um cadáver. Mas mesmo assim é uma fonte de vida, de melodias, de sugestões — a origem dum mundo misterioso e rico. Fora do círculo luminoso pesa um silêncio grave e parado.
Beethoven lamenta-se. É feio, surdo, e vive em conflito com os homens. A música parece escrever no ar estas palavras em doloroso desenho. Tua carta me lançou das mais altas regiões da felicidade ao mais profundo abismo da desolação e da dor. Não serei, pois, para ti e para os demais, senão um músico? Será então preciso que busque em mim mesmo o necessário ponto de apoio, porque fora de mim não encontro em quem me amparar. A amizade e os outros sentimentos dessa espécie não serviram senão para deixar malferido o meu coração. Pois que assim seja, então! Para ti, pobre Beethoven, não há felicidade no exterior; tudo terás que buscar dentro de ti mesmo. Tão-somente no mundo ideal é que poderás achar a alegria.
Adágio. O pianista sofre com Beethoven, o piano estremece, a luz mesma que os envolve parece participar daquela mágoa profunda.
Num dado momento as mãos do artista se imobilizam. Depois caem como duas asas cansadas. Mas de súbito, ágeis e fúteis, começam a brincar no teclado. Um scherzo. A vida é alegre. Vamos sair para o campo, dar a mão às raparigas em flor e dançar com elas ao sol... A melodia, no entanto, é uma superfície leve, que não consegue esconder o desespero que tumultua nas profundezas. Não obstante, o claro jogo continua. A música saltitante se esforça por ser despreocupada e ter alma leve. É uma dança pueril em cima duma sepultura. Mas de repente, as águas represadas rompem todas as barreiras, levam por diante a cortina vaporosa e ilusória, e num estrondo se espraiam numa melodia agitada de desespero. O pianista se transfigura. As suas mãos galopam agitadamente sobre o teclado como brancos cavalos selvagens. Os sons sobem no ar, enchem o teatro, e para cada uma daquelas pessoas do submundo eles têm uma significação especial, contam uma história diferente.
Quando o artista arranca o último acorde, as luzes se acendem. Por alguns rápidos segundos há como que um hiato, e dir-se-ia que os corações param de bater. Silêncio. Os sub-homens sobem à tona da vida. Desapareceu o mundo mágico e circular formado pela luz do refletor. O pianista está agora voltado para a platéia, sorrindo lividamente, como um ressuscitado. O fantasma de Beethoven foi exorcizado. Rompem os aplausos.
Dentro de alguns momentos torna a apagar-se a luz. Brota de novo o círculo mágico.
Suggestion Diabolique.
D. Margarida tira os sapatos que lhe apertam os pés, machucando os calos.
Não faz mal. Estou no camarote. Ninguém vê.
Mexe os dedos do pé com delícia. Agora sim, pode ouvir melhor o que ele está tocando, ele, o seu Gilberto. Parece um sonho... Um teatro deste tamanho. Centenas de pessoas finas, bem vestidas, perfumadas, os homens de preto, as mulheres com vestidos decotados — todos parados, mal respirando, dominados pelo seu filho, pelo Betinho!
D. Margarida olha com o rabo dos olhos para o marido. Ali está ele a seu lado, pequeno, encurvado, a  calva a reluzir foscamente na sombra, a boca entreaberta, o ar pateta. Como fica ridículo nesse smoking! O pescoço descarnado, dançando dentro do colarinho alto e duro, lembra um palhaço de circo.
D. Margarida esquece o marido e torna a olhar para o filho. Admira-lhe as mãos, aquelas mãos brancas, esguias e ágeis. E como a música que o seu Gilberto toca é difícil demais para ela compreender, sua atenção borboleteia, pousa no teto do teatro, nos camarotes, na cabeça duma senhora lá embaixo (aquele diadema será de brilhantes legítimos?) e depois torna a deter-se no filho. E nos seus pensamentos as mãos compridas do rapaz diminuem, encolhem, e de novo Betinho é um bebê de quatro meses que acaba de fazer uma descoberta maravilhosa: as suas mãos... Deitado no berço, com os dedinhos meio murchos diante dos olhos parados, ele contempla aquela coisa misteriosa, solta gluglus de espanto, mexe os dedos dos pés, com os olhos sempre fitos nas mãos...
De novo D. Margarida volta ao triste passado. Lembra-se daquele horrível quarto que ocupavam no inverno de 1915. Foi naquele ano que o Inocêncio começou a beber. O frio foi a desculpa. Depois, o coitado estava desempregado... Tinha perdido o lugar na fábrica. Andava caminhando à toa o dia inteiro. Más companhias. "Ó Inocêncio, vamos tomar um traguinho?" Lá se iam, entravam no primeiro boteco. E vá cachaça! Ele voltava para casa fazendo um esforço desesperado para não cambalear. Mas mal abria a boca, a gente sentia logo o cheiro de caninha. "Com efeito, Inocêncio! Você andou bebendo outra vez!" Ah, mas ela não se abatia. Tratava o marido como se ele tivesse dez anos e não trinta. Metia-o na cama. Dava-lhe café bem forte sem açúcar, voltava apara a Singer, e ficava pedalando horas e horas. Os galos já estavam cantando quando ela ia deitar, com os rins doloridos, os olhos ardendo. Um dia...
De súbito os sons do piano morrem. A luz se acende. Aplausos. D. Margarida volta ao presente. Ao seu lado Inocêncio bate palmas, sempre de boca aberta, os olhos cheios de lágrimas, pescoço vermelho e pregueado, o ar humilde... Gilberto faz curvaturas para o público, sorri, alisa os cabelos. ("Que lindos cabelos tem o meu filho, queria que a senhora visse, comadre, crespinhos, vai ser um rapagão bonito.)
A escuridão torna a submergir a platéia. A luz fantástica envolve pianista e piano. Algumas notas saltam, como projéteis sonoros.
Navarra.
Embalada pela música (esta sim, a gente entende um pouco), D. Margarida volta ao passado.
Como foram longos e duros aqueles anos de luta! Inocêncio sempre no mau caminho. Gilberto crescendo. E ela pedalando, pedalando, cansando os olhos; a dor nas costas aumentando, Inocêncio arranjava empreguinhos de ordenado pequeno. Mas não tinha constância, não tomava interesse. O diabo do homem era mesmo preguiçoso. O que queria era andar na calaçaria, conversando pelos cafés, contando histórias, mentindo...
— Inocêncio, quando é que tu crias juízo?
O pior era que ela não sabia fazer cenas. Achava até graça naquele homenzinho encurvado, magro, desanimado, que tinha crescido sem jamais deixar de ser criança. No fundo o que ela tinha era pena do marido. Aceitava a sua sina. Trabalhava para sustentar a casa, pensando sempre no futuro de Gilberto. Era por isso que a Singer funcionava dia e noite. Graças a Deus nunca lhe faltava trabalho.
Um dia Inocêncio fez uma proposta:
— Escuta aqui, Margarida. Eu podia te ajudar nas costuras...
— Minha Nossa! Será que tu queres fazer casas ou pregar botões?
— Olha, mulher. (Como ele estava engraçado, com sua cara de fuinha, procurando falar a sério!) Eu podia cobrar as contas e fazer a tua escrita.
Ela desatou a rir. Mas a verdade é que Inocêncio passou a ser o seu cobrador. No primeiro mês a cobrança saiu direitinho. No segundo mês o homem relaxou... No terceiro, bebeu o dinheiro da única conta que conseguira cobrar.
Mas D. Margarida esquece o passado. Tão bonita a música que Gilberto está tocando agora... E como ele se entusiasma! O cabelo lhe cai sobre a testa, os ombros dançam, as mãos dançam... Quem diria que aquele moço ali, pianista famoso, que recebe os aplausos de toda esta gente, doutores, oficiais, capitalistas, políticos... o diabo! — é o mesmo menino da rua da Olaria que andava descalço brincando na água da sarjeta, correndo atrás da banda de música da Brigada Militar...
De novo a luz. As palmas. Gilberto levanta os olhos para o camarote da mãe e lhe faz um sinal breve com a mão, ao passo que seu sorriso se alarga, ganhando um brilho particular. D. Margarida sente-se sufocada de felicidade. Mexe alvoroçadamente com os dedos do pé, puro contentamento. Tem ímpetos de erguer-se no camarote e gritar para o povo: "Vejam, é o meu filho! O Gilberto. O Betinho! Fui eu que lhe dei de mamar! Fui eu que trabalhei na Singer para sustentar a casa, pagar o colégio para ele! Com estas mãos, minha gente. Vejam! Vejam!"
A luz se apaga. E Gilberto passa a contar em terna surdina as mágoas de Chopin.
No fundo do camarote Inocêncio medita. O filho sorriu para a mãe. Só para a mãe. Ele viu... Mas não tem direito de se queixar... O rapaz não lhe deve nada. Como pai ele nada fez. Quando o público aplaude Gilberto, sem saber está aplaudindo também Margarida. Cinqüenta por cento das palmas devem vir para ela. Cinqüenta ou sessenta? Talvez sessenta. Se não fosse ela, era possível que o rapaz não desse para nada. Foi o pulso de Margarida, a energia de Margarida, a fé de Margarida que fizeram dele um grande pianista.
Na sombra do camarote, Inocêncio sente que ele não pode, não deve participar daquela glória. Foi um mau marido. Um péssimo pai. Viveu na vagabundagem, enquanto a mulher se matava no trabalho. Ah! Mas como ele queria bem ao rapaz, como ele respeitava a mulher! Às vezes, quando voltava para casa, via o filho dormindo. Tinha um ar tão confiado, tão tranqüilo, tão puro, que lhe vinha vontade de chorar. Jurava que nunca mais tornaria a beber, prometia a si mesmo emendar-se. Mas qual! Lá vinha um outro dia e ele começava a sentir aquela sede danada, aquela espécie de cócegas na garganta. Ficava com a impressão de que se não tomasse um traguinho era capaz de estourar. E depois havia também os maus companheiros. O Maneca. O José Pinto. O Bebe-Fogo. Convidavam, insistiam... No fim de contas ele não era nenhum santo.
Inocêncio contempla o filho. Gilberto não puxou por ele. A cara do rapaz é bonita, franca, aberta. Puxou pela Margarida. Graças a Deus. Que belas coisas lhe reservará o futuro? Daqui para diante é só subir. A porta da fama é tão difícil, mas uma vez que a gente consegue abri-la... adeus! Amanhã decerto o rapaz vai aos Estados Unidos... É capaz até de ficar por lá... esquecer os pais. Não. Gilberto nunca esquecerá a mãe. O pai, sim... E é bem-feito. O pai nunca teve vergonha. Foi um patife. Um vadio. Um bêbedo.
Lágrimas brotam nos olhos de Inocêncio. Diabo de música triste! O Betinho devia escolher um repertório mais alegre.
No atarantamento da comoção, Inocêncio sente necessidade de dizer alguma coisa. Inclina o corpo para a frente e murmura:
— Margarida...
A mulher volta para ele uma cara séria, de testa enrugada.
— Chit!
Inocêncio recua para a sua sombra. Volta aos seus pensamentos amargos. E torna a chorar de vergonha, lembrando-se do dia em que, já mocinho Gilberto lhe disse aquilo. Ele quer esquecer aquelas palavras, quer afugenta-las, mas elas lhe soam na memória, queimando como fogo, fazendo suas faces e suas orelhas arderem.
Ele tinha chegado bêbedo em casa. Gilberto olhou-o bem nos olhos e disse sem nenhuma piedade:
— Tenho vergonha de ser filho dum bêbedo!
Aquilo lhe doeu. Foi como uma facada, dessas que não só cortam as carnes como também rasgam a alma. Desde esse dia ele nunca mais bebeu.
No saguão do teatro, terminado o concerto, Gilberto recebe cumprimentos dos admiradores. Algumas moças o contemplam deslumbradas. Um senhor gordo e alto, muito bem vestido, diz-lhe com voz profunda:
— Estou impressionado, impressionadíssimo. Sim senhor! Gilberto enlaça a cintura da mãe:
— Reparto com minha mãe os aplausos que eu recebi esta noite... Tudo que sou, devo a ela.
— Não diga isso, Betinho!
D. Margarida cora. Há no grupo um silêncio comovido. Depois rompe de novo a conversa. Novos admiradores chegam.
Inocêncio, de longe, olha as pessoas que cercam o filho e a mulher. Um sentimento aniquilador de inferioridade o esmaga, toma-lhe conta do corpo e do espírito, dando-lhe uma vergonha tão grande como a que sentiria se estivesse nu, completamente nu ali no saguão.
Afasta-se na direção da porta, num desejo de fuga. Sai. Olha a noite, as estrelas, as luzes da praça, a grande estátua, as árvores paradas... Sente uma enorme tristeza. A tristeza desalentada de não poder voltar ao passado... Voltar para se corrigir, para passar a vida a limpo, evitando todos os erros, todas as misérias...
O porteiro do teatro, um mulato de uniforme cáqui, caminha dum lado para outro, sob a marquise.
— Linda noite! — diz Inocêncio, procurando puxar conversa. O outro olha o céu e sacode a cabeça, concordando.
— Linda mesmo.
Pausa curta.
— Não vê que sou o pai do moço do concerto...
— Pai? Do pianista?
O porteiro pára, contempla Inocêncio com um ar incrédulo e diz:
— O menino tem os pulsos no lugar. É um bicharedo.
Inocêncio sorri. Sua sensação de inferioridade vai-se evaporando aos poucos.
— Pois imagine como são as coisas — diz ele. — Não sei se o senhor sabe que nós fomos muito pobres... Pois é. Fomos. Roemos um osso duro. A vida tem coisas engraçadas. Um dia... o Betinho tinha seis meses... umas mãozinhas assim deste tamanho... nós botamos ele na nossa cama. Minha mulher dum lado, eu do outro, ele no meio. Fazia um frio de rachar. Pois o senhor sabe o que aconteceu? Eu senti nas minhas costas as mãozinhas do menino e passei a noite impressionado, com medo de quebrar aqueles dedinhos, de esmagar aquelas carninhas. O senhor sabe, quando a gente está nesse dorme-não-dorme, fica o mesmo que tonto, não pensa direito. Eu podia me levantar e ir dormir no sofá. Mas não. Fiquei ali no duro, de olho mal e mal aberto, preocupado com o menino. Passei a noite inteira em claro, com a metade do corpo para fora da cama. Amanheci todo dolorido, cansado, com a cabeça pesada. Veja como são as coisas... Se eu tivesse esmagado as mãos do Betinho hoje ele não estava aí tocando essas músicas difíceis... Não podia ser o artista que é.
Cala-se. Sente agora que pode reclamar para si uma partícula da glória do seu Gilberto. Satisfeito consigo mesmo e com o mundo, começa a assobiar baixinho. O porteiro contempla-o em silêncio. Arrebatado de repente por uma onda de ternura, Inocêncio tira do bolso das calças uma nota amarrotada de cinqüenta mil-réis e mete-a na mão do mulato.
— Para tomar um traguinho — cochicha.
E fica, todo excitado, a olhar para as estrelas.


Vendo-a Sorrir
(A minha filha) 
Filha, quando sorris, iluminas a casa
          Dum celeste esplendor.
A alegria é na infância o que na ave é asa
          E perfume na flor.

Ó doirada alegria, ó virgindade santa
          Do sorriso infantil!
Quando o teu lábio ri, filha, a minha alma canta
          Todo o poema de Abril.

Ao ver esse sorriso, ó filha, se concentro
          Em ti o meu olhar,
Engolfa-se-me o céu azul pela alma dentro
          Com pombas a voar.

Sou o Sol que agoniza, e tu, meu anjo loiro,
          És o Sol que se eleva.
Inunda-me de luz, sorri, polvilha de oiro
          O meu manto de treva!
                                                           Guerra Junqueiro, in 'Poesias Dispersas'

A Minha Filha
(Vendo-a dormir)
Que alma intacta e delicada!
Que argila pura e mimosa!
É a estrela d'alvorada
Dentro dum botão de rosa!

E, enquanto dormes tranquila,
Vejo o divino esplendor
Da alma a sair da argila,
Da estrela a sair da flor!

Anjos, no azul inocente,
Sobre o teu hálito leve
Desdobram candidamente,
Em pálio, as asas de neve...

E eu, urze má das encostas,
Eu sinto o dever sagrado
De te beijar— de mãos postas!
De te abençoar — ajoelhado!


O Primeiro Filho
(Carta ao amigo Bernardo Pindela) 
Entre tanta miséria e tantas coisas vis
          Deste vil grão de areia,
Ainda tenho o condão de me sentir feliz
          Com a ventura alheia.

À minha noite triste, à noite tormentosa,
          Onde busco a verdade,
Chegou com asas d'oiro a canção cor-de-rosa
          Da tua felicidade.

És pai, viste nascer um fragmento d'aurora
          Da tua alma, de ti...
Oh, momento divino em que o sorriso chora,
          E em que o pranto sorri!

Que ventura radiante! oh que ventura infinda!
          Olímpicos amores
Ter frutos em Abril com o vergel ainda
          Carregado de flores!

Deslumbramento!... ver num berço o teu futuro
          Sorrindo ao teu presente!...
Ter a mulher e a mãe: juntar o beijo puro
          Com o beijo inocente!...

Eu que vou, javali de flanco ensanguentado,
          Pelos rudes caminhos
Ajoelho quando escuto à beira dum valado
          Os murmúrios dos ninhos!

Em tudo que alvorece há um sorriso d'esperança,
          Candura imaculada!...
E quer seja na flor, quer seja na criança
          Sente-se a madrugada.

Quando, como um aroma, o hálito da infância
          Passa nos lábios meus
Vejo distintamente encurtar-se a distância
          Entre a minh'alma e Deus.

A mão para apontar o azul, mão cor-de-rosa
          Que aconselha e domina,
Será tanto mais forte e tanto mais bondosa
          Quanto mais pequenina.
                                                           Guerra Junqueiro




                                                        O ADIADO AVÔ

Nossa irmã Glória pariu e foi motivo de contentamentos familiares. Todos festejaram, excepto o nosso velho, Zedmundo Constantino Constante, que recusou ir aohospital ver a criança. No isolamento de seu quarto hospitalar, Glória chorou babas e aranhas. Todo o dia seus olhos patrulharam a porta do quarto. A presença de nosso pai seria a bênção, tão esperada quanto o seu próprio recém-nascido.
- Ele hã-de vir, há-de vir.
Não veio. Foi preciso trazerem o miúdo a nossa casa para que o avô lhe passasse os olhos. Mas foi como um olhar para nada. Ali no berço não estava ninguém. Glória reincidiu no choro. Para ela, era como sofrer as dores de um aborto póstumo. Suplicou a sua mãe Dona Amadalena. Ela que falasse com o pai para que este não mais a castigasse. Falasse era fraqueza de expressão: a mãe era muda, a sua voz esquecera de nascer.
O menino disse as primeiras palavras e, logo, o nosso pai Zedmundo desvalorizou:
- Bahh!
Contrariava a alegria geral. À mana Glória já não restava sombra de glória. Suspirou, na santa impaciência. Suspiro tão audível, que o velho se obrigou a destrocar:
- Aprender a falar é fácil. Com o devido respeito de vossa mãe. Que não é muda. Só que a voz lhe está adormecida.
Nossa mãe - agora, a tão assumida avó Amada-lena - sacudiu a cabeça. O homem sempre acinzentava a nuvem. Mas Zedmundo, no capítulo das falas, tinha a sua razão: nós, pobres, devíamos alargar a garganta não para falar, mas para melhor engolir sapos.
- E é o que repito: falar é fácil. Custa é aprender a calar.
E repetia a infinita e inacabada lembrança, esse episódio que já conhecíamos de salteado. Mas escutamos, em nosso respeitoso dever. Que uma certa vez, o patrão português, perante os restantes operários, lhe intimou:
- Você, fulano, o que é que pensa?
Ainda lhe veio à cabeça responder: preto não pensa, patrão. Mas preferiu ficar calado.
- Não fala? Tem que falar, meu cabrão.
Curioso: um regime inteiro para não deixar nunca o povo falar e a ele o ameaçavam para que não ficasse calado. E aquilo lhe dava um tal sabor de poder que ele se amarrou no silêncio. E foram insultos. Foram pancadas. E foi prisão. Ele entre os muitos cativos por falarem de mais: o único que pagava por não abrir a boca.
- Eu tão calado que parecia a vossa mãe, Dona Amadalena, com o devido respeito...
Meu velho acabou a história e só minha mãe arfou a mostrar saturação. Dona Amadalena sempre falara suspiros. Porém, em tons tão precisos que aquilo se convertera em língua. Amadalena suspirava direito por silêncios tortos.
Os dias passaram mais lestos que as lembranças. Mais breves que as lágrimas de nossa irmã Glória. O neto cumpriu o primeiro aniversário. Nesse mesmo dia, deu os primeiros passos. Houve palmas, risos, copos erguidos. Todos poliram júbilo menos Zedmundo, encostado em seu próprio corpo.
- Não quero aqui essa gatinhagem, ainda me parte qualquer coisa. Levem-no, levem-no...
Meu pai não terminou a intimação. Amadalena suspendeu-lhe a palavra com esbracejos, somados ao seu cantar de cegonha. O marido, surpreso:
- Que é isto, mulher? Já a formiga tem guitarra?
A mulher puxou-o para o quarto. Ali, no côncavo de suas intimidades, o velho Zedmundo se explicou. Afinal, ele sempre dissera: não queria netos. Os filhos não despejassem ali os frutos do seu sangue.
- Não quero cã disso. Eu não sou avô, eu sou eu, Zedmundo Constante.
Agora, ele queria gozar o merecido direito: ser velho. A gente morre ainda com tanta vida!
- Você não entende, mulher, mas os netos foram inventados para, mais uma vez, nos roubarem a regalia de sermos nós.
E ainda mais se explicou: primeiro, não fomos nós porque éramos filhos. Depois, adiámos o ser porque fomos pais. Agora, querem-nos substituir pelo sermos avós.
A avó ameaçou, estava farta, cansada. Desta vez, dada a quentura do assunto, Amadalena preferiu escrevinhar num papel. Em letra gorda, ela decretou: ou o marido se abrandava ou tudo terminava entre eles. Ele que saísse, procurasse outro lugar. Ou era ela mesma que se retirava. O velho Zed-mundo Constante respondeu, sereno:
- Amadalena, teu nome cabe na palma do meu coração. Mas eu não vou mudar. Se o meu tempo é pouco, então vou gastá-lo com proveito.
Não saiu ele, nem ela. Quem se mudou foi Glória. Ela e o marido emigrados na cidade. E com eles o menino que era o consolo de nossa mãe. Ela mais emudeceu, em seu já silencioso canto.
Não passaram semanas, nos chegou a notícia - o genro falecera na capital. Nossa irmã, nossa Glorinha perdera o juízo com a viuvez. Internaram-na, desvalida como mulher, desqualificada como mãe. E o menino, mais neto agora, chegava no primeiro machimbombo.
O menino entrou e meu pai saiu. Enquanto se retirava, já meio oculto no escuro ainda disse:
- Tudo o que você não falou, esta certo, Amadalena, mas eu não aguento.
O nosso pai saiu para onde? Ainda nos oferecemos para o procurar. Mas a mãe negou que fôssemos. O velho Zedmundo nunca tivera nem rumo certo nem destino duradouro.
O homem era mais falso que um tecto. Voltou dias depois, dizendo-se agredido por bicho feio, quem sabe hiena, quem sabe um bicho subnatural? Surgiu na porta, ficou especado. Ali naquela moldura feita só de luz se confirmava: porta fez-se é para homem sair e mulher estreitar o tempo da espera. Meu velho emagrecera abaixo do tutano, e em seus olhos rebrilhavam as mais gordas lágrimas. Amadalena se assustou: Zedmundo estreava-se em choro. Seu marido perdera realmente o fio de aprumo, sua alma se havia assim tanto desossado?
Depois, toda ela se adoçou, maternalmente. E se aproximou do marido, acatando-o no peito. E sentiu que já não era apenas o espreitar da lágrima. O seu homem se desatava num pranto. Vendo-o assim, babado, e minguado, minha mãe entendia que o velho, seu velho homem, queria, afinal, ser sua única atenção.
Conduzindo-o pela mão, minha mãe o fez entrar e lhe mostrou o neto já dormindo. Pela primeira vez, meu pai contemplou o menino como se ele acabasse de nascer. Ou como se ambos fossem recém-nascidos. Com desajeitadas mãos, o velho Zedmundo levantou o bebé e o beijou longamente. Assim demorou como se saboreasse o seu cheiro.
Minha mãe corrigiu aquele excesso e fez com que o miúdo voltasse ao quente do colchão. Depois o meu pai se enroscou no desbotado sofá e minha mãe colocou-se por detrás dele a jeito de o embalar em seus braços até que ele adormecesse.
Na manhã seguinte, ainda cedo, encontrei os dois ainda dormidos: meu velho no sofá e, a seu lado, o adiado neto. Minha mãe já tinha saído. Dela restara um bilhete rabiscado por sua mão. Não resisti e espreitei o papel. Era um recado para meu pai. Assim:
“Meu Zedmundo: durma comprido. E trate desse menino, enquanto eu vou à cidade.”
Entre rabiscos, emendas e gatafunhos, o bilhete era mais de ser adivinhado que lido. Dizia que meu pai ainda estava em tempo de ser filho. Culpa era dela, que ela já se tinha esquecido: afinal, meu pai nunca antes fora filho de ninguém. Por isso, não sabia ser avô. Mas agora, ele podia, sem medo, voltar a ser seu filho.
“Seja meu filho, Zedmundo, me deixe ser sua mãe. E vai ver que esse nosso neto nos vai fazer sermos nós, menos sós, mais avós.”
Dobrei o bilhete e o deixei no tampo da mesa. Esperei na varanda que minha mãe chegasse. Eu sabia que ela tinha ido buscar minha irmã Glória. Antes, eu jurara contar esta história a minha irmã. Mas agora, lembro as palavras de meu pai sobre o aprender a calar. E decido que nunca, mas nunca, contarei isto a ninguém. Minha mãe, que é muda, que conte.
                                                             Mia Couto, O Fio das Missangas